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Fire Team: O que é, como funciona e como fugir (se quiser)




Ahhhh, a vida a bordo! Conhecer lugares diferentes e incríveis, descer em todos os portos que o navio parar, curtir todos os overnights… Que vida boa.
Peeeeeeeennnn! Hora de acordar.
É claro que a vida a bordo, têm coisas incríveis e que, com certeza nunca viveríamos morando somente no nosso país e é por isso que amo essa vida e me orgulho.
Quando se chega a bordo, algumas coisas e acontecimentos podem influenciar totalmente em como vai ser sua vida lá dentro, quando você vai poder sair, e quais serão as suas responsabilidades.

A bordo, cada tripulante tem uma função que será exercida em caso de emergência. Têm aqueles, que devem ficar nos corredores do navio ajudando na evacuação dos passageiros, têm os que vão preparar os botes e lanchas salva-vidas, os que organizarão passageiros e tripulação para embarque nos botes, os que não fazem nada, e claro, os que fugirão em caso de emergência (entendedores entenderão).
Existem também, equipes que deverão agir caso a emergência aconteça dentro do navio, principalmente. Tem a equipe de médicos, que devem verificar o que está acontecendo com a vítima, a equipe que vai transportar a pessoa seja para a enfermaria ou para o helicóptero, e a equipe de bombeiros, ou como prefiro chamar o Fire Team.
Fire team - cruise ships
Foto: Cruise Ship Jobs
Quando fui transferido para o Costa Serena, tive uma bela surpresa em relação à minha responsabilidade em caso de emergência. No Mediterranea, eu fazia parte do time AA, que era responsável pelo auxílio na evacuação dos passageiros. Não era uma função legal, pois devia sempre ficar em pé no local designado para mim, durante todos os drills, mas tinham algumas facilidades.
A minha nova função no Serena em caso de emergência, era no Fire Team (bombeiros). Quando perguntei aos tripulantes mais antigos, disseram que era uma das piores funções para ficar. Eu não sabia porque, mas descobriria em breve.

Toda semana nós tínhamos drill para passageiros e também para tripulantes. Um dos drills consistia em sempre fazer uma simulação de fogo a bordo, onde o Fire Team se deslocava de forma estratégica entre os corredores do navio, para apagar o fogo de forma mais rápida com o menor dano possível, enquanto o outro time se preparava para retirar as vítimas, caso houvessem. Para nos prepararmos para o drill, deveríamos chegar sempre uns quinze minutos antes para a preparação, colocar o macacões, máscaras e os outros itens de proteção, era uma função enorme somente para o drill, eu sempre pensava como seria colocar tudo aquilo caso realmente houvesse uma emergência a bordo. Era uma coisa completamente diferente, e com certeza aprende-se muito com essa função, mas o comprometimento devia ser enorme.

Algumas vezes, eles não avisavam qual seria o horário do drill, que muitas vezes poderia cair no nosso horário de descanso.

Na semana em que os inspetores da cia estavam a bordo para analisar como estavam todos os processos daquele navio, todo mundo estava morrendo de medo e fazendo tudo milimetricamente correto, para que o navio não fosse reprovado em nada. Teríamos mais um drill como costumávamos ter, e seria tudo da mesma forma, só que com a supervisão deles.
Eu trabalhei durante a manhã, e após o trabalho faltavam alguns minutos até o drill começar, eu sabia que deveria estar no meeting point do Fire Team antes do início, mas decidi descansar por uns minutos na cabine. O Pong, estava na cabine pegando as coisas para o drill e saindo, e cinco minutos depois me ligou avisando pra eu sair da cabine, pois o drill já ia começar, falei que tudo bem, já subiria e desliguei.
ECHO TANGO INDIA! ECHO TANGO INDIA!
Foi com esse chamado que eu acordei. PQP, eu deveria ter subido antes do início do drill. Pulei da cama, coloquei o sapato e subi correndo para o meeting point, pelo atalho que eu conhecia pelas escadas e ninguém me veria. No meio das escadas, encontrei com umas pessoas conversando em italiano. Me fodi. Eram os inspetores e o Francesco, Safety Officer, estavam se preparando para ver como funcionavam as simulações no Serena.
O inspetor me olhou dando risada e perguntando onde eu estava indo naquela hora, e correndo tanto. Respondi que estava subindo para a muster station, ele olhou o meu nametag, fez uma cara estranha e disse ‘ok’.



Chegando no meeting point, a sala estava vazia, toda a equipe de bombeiros já havia descido. Pouco depois um dos responsáveis por olhar a salinha chegou e me falou que eu deveria ter assinado ‘a chamada’ logo, mas dava pra esperar e assinar quando eles voltassem. Consegui assinar depois de uma bronca do 2nd Officer, mas não disse que os inspetores haviam me visto nas escadas.
Os drills eram sempre chatos como AA, pois ficávamos sempre de pé, às vezes, sem nenhum passageiro ou security para nos ver, mas fazer drill com o Fire Team era muito pior.

Umas das piores coisas de ser do Fire Team era com certeza, o fato de saber que eu raramente conseguiria trocar o Port Manning com alguém, pois eram poucas pessoas, a maioria saía sempre ou nunca trocava e nem todos eram do meu departamento, o que diminuía ainda mais as minhas chances. Eu sabia que tinha que arrumar um jeito de mudar o meu duty, mas não sabia como, pois o maitre Rocco não dava a mínima pra essas coisas.

Certo dia, conversando com o João (carequinha Ass Waiter), falei do fire team e ele me deu uma idéia muito boa, que com certeza não falharia.

Em um dos meus breaks durante um dia de at sea, fui até a sala do Safety Officer falar de um problema muito sério que eu tinha e que poderia com certeza colocar a minha vida em risco, a de outras pessoas e prejudicar toda uma operação. Disse a ele que tinha medo de fogo, que ficava apavorado e imóvel quando via algo do tipo, e já havia me sentido mal durante um dos drills, porque simularam com fumaça.




Haaaaaaa ye ye! Duty trocado. Se ele acreditou eu não sei, mas na mesma hora ele pegou o meu booklet e mudou minha função para AA, onde minha responsabilidade seria auxiliar os passageiros. Eu teria mais chance de trocar o Port Manning e ficaria mais tranquilo nos drills, podendo até fazer um mamagaio durante as simulações.

Não que eu me orgulhe de ter inventado essa história, por ideia do João, mas foi a forma que encontrei de me livrar desse peso. A vida a bordo, já é bem corrida só com o trabalho, não dá pra complicar mais com as outras coisas, mesmo sendo algo que se trate de segurança, nós queremos um pouco de lazer nos intervalos, então é melhor evitar essa responsabilidade.
Três semanas depois, eu já nem sabia mais o que era ser do Fire Team, quando o secretário do maitre me chamou no Office. Eu tinha acabado de levar um warning, que se referia ao dia dos inspetores na escada, ele não anotou meu nome na hora, olhou o nametag e disse ‘ok’. Essas são as surpresas da vida a bordo. Fique esperto, pois se estiver em alguma situação ruim e olharem pro seu nametag, algo ruim pode vir, os securities sempre olhavam meu nametag, mas nunca tive problemas.
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Bruno Miguel

Já morei numa casa de lata flutuante onde o maior prazer era descobrir os sete mares. Trabalhei nos maiores eventos esportivos do mundo e vi o Bolt voando para mais um ouro no Rio de Janeiro. Hoje viajo o mundo sem data de volta para casa, na verdade, tenho chamado o mundo de minha casa. Não conto quantos países conheci pelo número de carimbos no passaporte, pois às vezes conheço dez países dentro de um só. Mergulhador e amante do oceano, amo aprender novos idiomas e coisas novas e escrevo sobre algumas das minhas aventuras no Na Proa da Vida.

http://www.naproadavida.com/

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